Conhecimento de Deus

Teologia é a disciplina sobre o conhecimento de Deus. Para a maioria de nós, teologia significa ler, estudar, escrever, ou seja, se dedicar intelectualmente para buscar o conhecimento de Deus. Ainda que esse exercício intelectual tenha seu valor, não parece que no pensamento bíblico o conhecimento de Deus tenha a ver com isso.

O livro de Jeremias, diferente de outros livros proféticos, apresenta muito de seu conteúdo como um tipo de debate com outros profetas, escribas, e a elite sacerdotal de Judá que se encontrava no templo e no palácio de Jerusalém. Na prática, o debate é sobre se haveria salvação ou destruição para Judá e seu povo. De um lado, Jeremias profetiza que a destruição está à porta; do outro lado estão os outros profetas, escribas e sacerdotes, dizendo que Deus os salvaria. Mas no fundo desse debate no livro de Jeremias está uma questão muito profunda: o que é a verdade e como podemos conhecê-la?

Tanto a verdade quanto a falsidade, no decorrer do debate de Jeremias com seus oponentes, é mais do que uma questão de idéias e conceitos, ou seja, a verdade e a falsidade não são meras palavras. Trata-se, de fato, de uma questão sobre a vida verdadeira e a vida falsa. Um bom exemplo disso está na profecia de Jeremias no templo de Jerusalém no capítulo 7. Ele parece estar falando somente a respeito de palavras falsas quando diz: “Não confiem em palavras falsas, dizendo: ‘Templo do Senhor! Templo do Senhor! Este é o templo do Senhor!’” (v. 4 ). Mas vejam o que vem antes e o que vem depois: “Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Corrijam a sua conduta e as suas ações, e eu os farei habitar neste lugar” (v. 3); “Mas se de fato emendarem os seus caminhos e as suas ações, se de fato praticarem a justiça, cada um com o seu próximo; se não oprimirem o estrangeiro, o órfão e a viúva, nem derramarem sangue inocente neste lugar, nem seguirem outros deuses para o próprio mal de vocês, eu os farei habitar neste lugar, na terra que dei aos pais de vocês, desde os tempos antigos e para sempre” (vv. 5-7). O que parece ter somente a ver com palavras, na verdade, é sobre um modo de vida. A falsidade das palavras é o resultado de uma vida falsa. Mas o que torna essa vida falsa? No versículo 8, Jeremias diz algo muito importante: “Eis que vocês confiam em palavras falsas, que não servem para nada”. O que torna uma vida falsa ou verdadeira é se esta tem algum benefício. Isso parece subjetivo e até pragmático demais, mas não é.

Aqui podemos começar a dar uma resposta para as duas perguntas fundamentais: o que é a verdade e como podemos conhecê-la? Uma parte da primeira resposta é que a verdade é algo que gera benefício. Com essa parte da resposta já sabemos que Jeremias não entende a verdade como uma ideia, uma essência, e sim como algo concreto sobre a vida.

Precisamos cavar um pouco mais para qualificar essa primeira parte da resposta. Na teologia, o conhecimento da verdade e o conhecimento de Deus são interdependentes, quando não são a mesma coisa. O mesmo acontece em Jeremias, mas não se trata de um conhecimento abstrato sobre a essência do ser divino. Trata-se de conhecer o modo de agir de Deus, sua justiça e seus mandamentos. Vejam essa comparação. No capítulo 5, Jeremias diz: “Eles nada sabem. Não conhecem os caminhos do Senhor, não entendem o que a justiça de Deus exige” (v. 4). Já no capítulo 9, temos um indício do que seja conhecer a Deus, seus caminhos, sua justiça e seus mandamentos. Jeremias diz o seguinte: “… me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor” (v. 24).

Assim, uma resposta provisória para nossas duas perguntas ficaria assim: A verdade é aquilo que traz algum benefício e nós a conhecemos atentando, percebendo, reconhecendo o modo de agir justo e misericordioso de Deus. Com esse fundamento, podemos tratar de um texto que compacta nossa discussão até aqui e nos encaminha para mais algumas qualificações fundamentais:

“Ele defendeu a causa do pobre e do necessitado, e, assim, tudo corria bem. Não é isso que significa conhecer-me? declara o Senhor” (Jeremias 22.16).

Essa fala profética de Jeremias está apontando para a vida de Josias, rei de Judá, famoso pela renovação da aliança e observância da lei, conforme aparece em 1Reis 22-23. A profecia de Jeremias aqui é uma exortação ao filho de Josias, Jeoaquim, que rompeu com os caminhos de seu pai, e precedeu a derrota de Judá e a destruição de Jerusalém pelos babilônios.

As três partes desse versículo apontam exatamente para as três partes que venho tentando desenvolver até aqui: a verdade tem a ver com algo que traz algum bem (“tudo corria bem”); o conhecimento da verdade tem a ver com conhecer os caminhos de Deus (“não é isso que significa conhecer-me?”); e esse conhecimento é concreto e prático, e não está no nível das idéias e das essências (“ele defendeu a causa do pobre e do necessitado”). Mas a forma e o contexto dessa profecia vai nos ajudar a chegarmos numa conclusão mais acertada.

Primeiro, um fundamento importante que aparece nessa profecia é o termo “conhecimento” (hebraico, daʿat). Não é nenhum segredo que esse termo, assim como o verbo cognato yādaʿ, quando se refere a pessoas, não é sobre adquirir e processar informações. Conhecer alguém, aqui, significa ter um relacionamento profundo e um compromisso pessoal com o outro. É especialmente esse segundo elemento, o compromisso pessoal, que explica o motivo de o conhecimento de Deus não ter a ver com uma informação sobre sua essência, mas sobre seu modo de agir. Como seres humanos limitados, não temos acesso à essência do divino e nem é isso que Deus nos propõe. Nosso acesso à pessoa de Deus se dá na observação de seu relacionamento com a criação, em seu agir e caminhar. E nosso relacionamento com Deus se dá nessa ação e nesse caminho. É por isso que conhecer a Deus tem a ver com nosso relacionamento com ele. É, também, por isso que conhecê-lo e ter um relacionamento com ele se dá ao seguirmos o seu caminho, num compromisso prático de ações que correspondem ao seu modo de agir.

Segundo, um fundamento importante sobre os caminhos de Deus, ou seja, sobre quem ele é em relação à criação, aparece nesse texto. Na profecia de Jeremias, Josias conheceu a Deus porque ele defendeu a causa do pobre e do necessitado. Se seguirmos a lógica que estamos propondo aqui, então os caminhos de Deus têm a ver com a defesa da causa do pobre e do necessitado. Vejam como essa afirmação é verdadeira: “Cantem ao Senhor! Louvem ao Senhor! Porque ele salvou a vida do pobre das mãos dos malfeitores” (Jr 20.13). Percebam como um relacionamento pessoal com Deus aqui, mesmo no nível da adoração, está fundamentado em suas ações de justiça e misericórdia. Muito do que encontramos nas profecias de Jeremias, em sua disputa com seus oponentes sobre a salvação ou destruição de Judá, tem a ver com o modo como Deus se importa com os pobres e necessitados.

Terceiro, e por último, temos que pensar sobre como a verdade ou o conhecimento de Deus, em Jeremias, é definido por um resultado benéfico, ou seja, algo que gera benefícios. Esse texto de Jeremias 20.13 e o contexto de Jeremias 22.16 irão nos apontar para uma resposta. Temos dois detalhes importantes em Jeremias 20.13. O primeiro é que Deus deve ser louvado por salvar a VIDA do pobre. Então o conhecimento de Deus, e o que é a verdade, devem ter alguma coisa a ver com vida. O segundo é que a vida do pobre estava em risco por causa da ação de certas pessoas chamadas de malfeitoras. Com isso, podemos nos voltar para o contexto de Jeremias 22.16. Como foi dito, trata-se de uma exortação a Jeoaquim, filho de Josias. Se Josias conheceu a Deus por defender a causa do pobre e do necessitado, o que foi que Jeoaquim fez que demonstrou não conhecer a Deus? Jeremias diz o seguinte: “Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça e os seus aposentos, contrariando o direito! Que faz o seu próximo trabalhar de graça, sem lhe pagar o salário. Ai daquele que diz: ‘Edificarei para mim uma casa bem grande, com aposentos espaçosos.’ Então ele põe janelas na casa, forra as paredes com cedro, e a pinta de vermelho” (Jr 22.13-14).

Do ponto de vista de Jeoaquim, suas ações trazem benefício, não é mesmo? É um resultado bom, para ele, e para alguns poucos a sua volta. Contudo, não somente suas ações não trazem nada de bom para a multidão de pessoas que vivem debaixo de seu reinado, como suas ações são uma ameaça à vida dessas pessoas. O conhecimento de Deus, a verdade, não pode gerar injustiça e morte. O benefício gerado pela verdade pode ser definido como aquilo que é necessário para a vida de todos. O recurso básico para a vida é a água. Por isso, logo no começo do livro de Jeremias, a disputa entre verdade e falsidade, ou entre Deus e os ídolos das outras nações, é estabelecido a partir de uma metáfora envolvendo água: “abandonaram a mim, a fonte de água viva, e cavaram cisternas, cisternas rachadas, que não retêm as águas” (Jr 2.13). De certa forma, portanto, o benefício gerado pela verdade ou pelo conhecimento de Deus, é sobre a vida e o bem-estar de todos. Por isso a ênfase, em Jeremias, na questão da justiça aos pobres e necessitados contra malfeitores, ou opressores, como Jeoaquim, pois tais pessoas colocam a vida dos pobres e necessitados em risco. Em vez de gerar recursos para a vida de todos, gera escassez, insegurança, injustiça e morte.

Assim, podemos pensar porque o conhecimento de Deus está vinculado ao conhecimento da verdade, que está vinculado à justiça aos pobres e necessitados. A verdade tem a ver com como as coisas são, ou seja, com a realidade. Se o que conhecemos de Deus é que ele age com justiça, a fim de que haja vida, então ele deve ter criado a realidade de uma forma que siga essa lógica. É por isso que essa busca por sabedoria, força e riqueza (Jr 9.23), seguindo a lógica humana, causando injustiças que põe em risco a vida dos outros, é considerada por Jeremias como falsidade. Tal modo de viver no mundo não condiz com a realidade. O que condiz com a realidade é defender a causa dos pobres e necessitados, pois o mundo foi criado por aquele que age com “misericórdia, justiça e retidão na terra” (Jr 9.24). É por isso que a verdade, para Jeremias, é aquilo que resulta em algum bem. Esse bem é a vida de todos, especialmente daqueles que têm sua vida ameaçada.

Agora, portanto, podemos responder com mais exatidão as duas perguntas: o que é a verdade e como podemos conhecê-la? A verdade é tudo o que é capaz de gerar vida, especialmente aos que têm suas vidas mais ameaçadas. Podemos conhecer a verdade quando conhecemos a Deus e caminhamos com ele em seu compromisso de misericórdia, justiça e retidão na terra, pois é isso que gera vida. É por isso que Jeremias afirma: “Ele defendeu a causa do pobre e do necessitado, e, assim, tudo corria bem. Não é isso que significa conhecer-me? declara o Senhor”.