Vozes do Abrigo

Crianças e adolescentes que cresceram em abrigos enfrentam algumas dificuldades que, quando chega o momento da adoção, ficam ainda mais evidentes.
Uma delas é sobre o amor. É quase impossível, para quem foi abandonado, rejeitado ou sofreu qualquer tipo de abuso, acreditar no amor. Isso porque, na lógica da vida, o amor deveria vir primeiro dos pais. Quando isso não acontece, como acreditar que outras pessoas possam nos amar? Esse é o principal desafio.
Quando essas crianças e adolescentes são adotados, muitas vezes fazem de tudo para provar — inconscientemente — que essa “verdade” (a de que ninguém os ama) é real. Mas sabemos que, se alguém os adotou, é porque os ama. No entanto, devido à realidade que viveram, não basta apenas dizer isso: é preciso tempo.
A palavra mais importante nesse processo é paciência, pois primeiro é necessário ressignificar para depois construir. Muitos pais adotivos acreditam que, depois de alguns dias de diversão juntos, o vínculo estará criado. Mas não é assim.
A criança ou o adolescente trava uma luta interna para não acreditar nesse novo amor, e não é porque são “difíceis” ou “rebeldes”. É porque aprenderam, desde cedo, a lidar com a rejeição e o abandono — um lugar emocional onde viveram por muito tempo. Para eles, é mais fácil não criar laços do que correr o risco de sofrer novamente.
Nos primeiros meses, é comum que façam de tudo para que vocês os rejeitem e os “devolvam”. Se vocês conseguirem atravessar esse período, então começará o verdadeiro tempo de criar vínculo.
É importante lembrar que cada criança e cada adolescente é único nesse processo. Algumas coisas ajudam muito, como entender que:
- Eles não estão rejeitando vocês — eles apenas não sabem ser filhos amados.
- Quando estiverem em crise, é o momento em que mais precisam ouvir de vocês que são amados e escolhidos.
Lembrem-se: o descontrole é deles, não de vocês. Por isso, mantenham a calma e sejam leves. Vocês ouvirão palavras duras, e quando isso acontecer, saibam que é um sinal de avanço — quanto mais eles se “defendem”, mais estão testando o quanto são realmente amados.
Viver em um abrigo pode ter momentos divertidos, mas, na maioria das vezes, é cansativo. No fundo, o que queremos é apenas ter nossos pais, nosso quarto, nossas coisas, nossa família.
Quando adotarem, entendam que tudo começa do zero. É preciso criar memórias e momentos, não importa a idade. Mesmo adolescentes precisam de colo, de cuidado, de serem levados até a cama de vez em quando.
Mas uma dica importante: não tentem ir mais rápido do que eles conseguem. Muitos pais adotivos desejam que as crianças e adolescentes ajam como filhos imediatamente — mas não funciona assim.
Primeiro, ajudem-os a ressignificar a própria história. Só então eles estarão prontos para serem, de fato, filhos.

Nataline Mendes de Freitas
28 anos, natural de Aquiraz/CE, é missionária em tempo integral.
Fruto de um trabalho missionário ainda na infância, conheceu a Deus aos 7 anos de idade, experiência que marcou profundamente sua história e direcionou seu chamado.
Hoje, servir crianças e adolescentes é a forma pela qual compreende, vive e anuncia o amor de Deus. A missão não é apenas o que faz, mas quem ela é. Com sensibilidade e fé, caminha sendo instrumento para que crianças e adolescentes, especialmente em contextos difíceis, tenham a oportunidade de conhecer a Deus e experimentar Seu cuidado, amor e esperança.




